POR MARIA CEIÇA BORGES
É notória a onda crescente de violência contra crianças e adolescentes no Brasil, um fenômeno complexo e multifacetado, que está ligado a fatores culturais, sociais e econômicos. As violência ocorrem em qualquer contexto geográfico, classe social e vitimam milhões de meninos e meninas cotidianamente, comprometendo sua qualidade de vida e seu desenvolvimento físico, emocional, intelectual e social.
Entre as violências praticadas contra menores, o abuso sexual é o mais prejudicial pois, de acordo com estudos nacionais e internacionais, pode causar consequências e traumas severos, comprometendo o desenvolvimento físico, emocional, afetivo, cognitivo, psicológico e sexual tanto das crianças quanto dos adolescentes.
Diante desse cenário e buscando minimizar o impacto na vida das crianças e adolescentes, deve-se começar o diálogo com o bebê sobre educação sexual ainda no ventre, prestando muita atenção à maneira como conversa com ele. Após o nascimento já pode iniciar a conversa sobre sexualidade, uma vez que os laços afetivos são construídos com seus pais, com a família e com a sociedade.
Conforme a criança vai crescendo, esses laços se fortalecem cada vez mais. É importante que nas situações de brincadeira, banho e alimentação, entre outros, o adulto aproveite para dialogar com os bebês/crianças sobre as partes do seu corpo, nomeando naturalmente todas elas, inclusive as íntimas – pênis para os meninos e vulva para as meninas, pois na maioria das vezes o adulto não sabe mesmo ou prefere tratar as partes íntimas das crianças por palavras inadequadas, como xoxota, pepeca, pinto, xereca, florzinha ou peru, o que deixa a criança confusa e insegura.
A orientação e a informação são fundamentais para que se construa uma cultura de educação, prevenção,
proteção e auto proteção. Contudo, esse conteúdo deve começar na família por meio do diálogo com naturalidade, clareza e verdade. Além disso, é no lar que a criança adquire sua percepção sobre valores, crenças e moralidade.
Dialogar com as crianças sobre esse assunto desde tenra idade é muito importante porque, além da
possibilidade de conhecer o seu corpo progressivamente, oportuniza o desenvolvimento da linguagem, a
ampliação e enriquecimento do vocabulário, como também a construção de vínculos entre as crianças e a
família.
À medida que a criança se desenvolve, o diálogo deve permanecer e o adulto precisa ficar atento
a ela, considerando suas perguntas importantes e respondendo-as sempre com a verdade. Mesmo com a vida corrida dos pais ou responsáveis, é importante que eles construam com as crianças o hábito de conversar naturalmente, ouvindo com atenção suas questões e também colocando temas que sejam importantes para que elas conheçam a si mesmas, sejam melhor protegidas, aprendam a se auto proteger e tenham uma vida saudável.
QUANTO MAIS EDUCAÇÃO, MAIS PROTEÇÃO!
A escola é outro espaço privilegiado para tratar desse tema porque é onde as crianças expandem seus saberes, as amizades e também constroem vínculos por meio das interações que estabelecem com seus pares, com crianças maiores, professores e outros.
Ali, o trabalho educativo deve considerar a fase em que a criança está, seus interesses, acolher o que ela busca saber, considerando sempre suas necessidades e especificidades. É importante privilegiar o lúdico, como contar e ler histórias e desenhar, entre outras atividades. Cabe ainda à escola desempenhar um papel ativo no ensino e discussão no que refere à autoproteção, abordando os diversos aspectos da educação sexual.
É importante ressaltar que, quanto mais informação, mais proteção. Nesse sentido é fundamental trabalhar com a criança de modo que ela construa uma concepção sobre o valor do seu corpo, sobre conceitos como consentimento, limites do corpo, tipo de toques, intimidade, privacidade, sentimentos, emoções e tantos outros pontos. Isso possibilita maior condição de proteção e autoproteção. A educação sexual, na visão de especialistas, é a ferramenta mais poderosa para a proteção de crianças e de adolescentes.
Considerando as estatísticas alarmantes sobre o abuso sexual infantil, recomenda-se que esse tema esteja presente com naturalidade no diálogo entre pais/responsáveis e as crianças desde tenra idade, pois dessa forma estarão oferecendo maior proteção, assim como as crianças com mais conhecimento poderão melhor se auto proteger.
Fonte: Como falar sobre sexualidade com as crianças, Leiliane Rocha